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Nascida no Alabama, Estados Unidos, em 1880, Helen Keller era uma criança normal até pouco mais de um ano e meio de vida, quando foi vítima de uma enfermidade que os médicos não conseguiram diagnosticar com precisão. A doença tirou-lhe a visão, a audição e, em conseqüência da surdez, incapacitou-a para a fala. Durante cinco anos a menina viveu apenas com os sentidos do olfato e tato, em condições as mais dramáticas, embora seus pais tudo fizessem para solucionar ou amenizar as terríveis limitações. A própria Helen disse, anos depois, que naquele período ela era "como um fantasma vivendo num mundo que não existia".

Certo dia, a mãe de Helen ao ler um trabalho de Charles Dickens soube que no Instituto Perkins, em Boston, o Dr. Samuel Howe havia ensinado Laura Bridgman, criança cega e surda, a ler e escrever através de métodos especiais. O fato havia ocorrido cinqüenta anos antes, mas acendeu uma chama de esperança no coração da família Keller.

O início da libertação

Consultas renovadas a especialistas somente traziam desânimo, para eles a menina seria sempre cega e surda. Alguns suspeitavam também da existência de idiotia. Mas, um dos médicos sugeriu aos pais que procurassem em Washington um professor de surdos-mudos, também conhecido como inventor de instrumentos destinados à transmissão de sons pela eletricidade. Era um escocês, naturalizado norte-americano, mestre em fisiologia vocal, doutor em filosofia, que se imortalizou por ter inventado o telefone. Assim, Helen teve o primeiro contato com Alexander Graham Bell.

Orientado por Bell, o pai de Helen escreveu ao Instituto Perkins que, em resposta, enviou uma professora recém-diplomada para conhecer a menina e buscar os meios de ajudá-la.

A fúria do "fantasma"

Anne Sullivan, a professora indicada, era filha de humildes imigrantes irlandeses, vítimas de aguda pobreza, e desde criança sofria de cegueira parcial. O período inicial de Helen, que havia completado sete anos, e Anne, vinte e um, foi tempestuoso, marcado pela violenta rejeição da menina àquela presença da qual somente sentia o tato e o olfato. Eram gestos bruscos, empurrões e pancadas desferidas pelo "fantasma" para fugir ao contato físico que procurava acalmá-la. Um "fantasma" sem noção do tempo, resistindo à jovem professora semi-cega que tentava fazê-la adotar horários de deitar, dormir, levantar, banhar-se e alimentar-se.

Aquelas cenas foram recriadas no filme que se tornou um dos clássicos do cinema, The Miracle Worker ("O Milagre de Anne Sullivan"), de 1962, dirigido por Arthur Penn, com Patty Duke e Anne Bancroft, revivendo Keller e Sullivan, respectivamente.

Em 1919, o filme Deliverance já havia mostrado o drama vivido por Anne e Helen, também reproduzido em outras obras cinematográficas e peças teatrais.

A descoberta da água

Ao longo de um mês, aluna e professora foram se ajustando e em 5 de abril de 1887 o "fantasma" Helen entrou em contato com o mundo real. No seu livro "Lutando Contra as Trevas", há um trecho do prefácio de Nella Braddy Henney narrando o que ocorreu naquele dia:

"Enquanto Anne jogava água na sua mão, ocorreu à criança, num lampejo, que água, estivesse onde estivesse, era água e os movimentos dos dedos que acabara de sentir sobre a palma das mãos significava água e nada mais. Naquele momento emocionante Helen descobriu a chave do seu reino. Cada coisa tinha um nome e ela possuía um meio de aprendê-lo".

Aos 10 anos, Helen começou a deixar de "falar" com os dedos, iniciando o aprendizado de dicção, exercitando a emissão de sons articulados, com a paciente orientação de Anne. Após onze exercícios, Helen foi capaz de pronunciar com razoável clareza: "Eu agora não sou muda".

Professora e aluna jamais se separaram, com Anne participando de todas as atividades de Helen, que a partir de 1908 escreveu quatorze livros. Em 1913 começou a falar em público, apesar dos sons guturais, realizando freqüentes conferências.

Homenagens em todo o mundo

Helen abraçou o socialismo, a defesa dos direitos da mulher e participou da fundação e ajuda a várias instituições para cegos e surdos-mudos. Amiga de Charles Chaplin, Mark Twain, Bernard Shaw e tantas personalidades mundiais, manteve particular amizade a Graham Bell, pois jamais esquecera que o inventor, ao recebê-la carinhosamente e indicar o Instituto Perkins, havia sido um elo importante na corrente que a havia livrado de uma vida de silêncio e trevas. O "fantasma" tornara-se filósofa, escritora, poetisa, laureada em várias áreas do conhecimento humano. Sabia álgebra, matemática, grego e latim, lia e falava, também, francês e alemão.

Percorreu os cinco continentes, sendo recebida por reis, rainhas e presidentes, sempre causando profunda emoção em todos os países. No Brasil, em 1953, não foi diferente, sendo carinhosamente recebida no Rio, quando falou no Instituto Benjamim Constant e no Instituto de Educação; em São Paulo conheceu o admirável trabalho de Dorina Norwill, também cega, diretora da Fundação Brasileira de Proteção aos Cegos que se empenhava em campanhas para que fosse proporcionado trabalho aos deficientes visuais.

Anne Sullivan morreu em 1936, aos 70 anos; Helen Keller em 1968, aos 88 anos. Pouco antes de morrer, Helen escreveu esta mensagem:

"Espero, feliz, a aproximação do outro mundo, em que todas as minhas limitações cairão como grilhetas. Aí hei de encontrar a minha querida professora e me dedicarei, com júbilo, a um trabalho bem maior do que, até o presente, conheci".

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Texto: Eliane Brasil